INTOLERÂNCIA À LACTOSE, GLÚTEN E OUTROS MODISMOS ALIMENTARES

  Ao se debruçar sobre a literatura pertinente ao assunto, revisando os consensos médicos e a opinião dos maiores especialistas mundiais, percebemos uma nítida discrepância entre a taxa real de doença céliaca (popularmente conhecida como "intolerância" ao glúten) e de intolerância à lactose, versus a proliferação excessiva de diagnósticos desse tipo que estamos observando nos dias atuais!

  Vivemos na era da moda da intolerância alimentar, e vários fatores contribuem para esta proliferação absurda de diagnósticos desse tipo de alteração! Em ambos os casos, profissionais inescrupulosos se utilizam da alta imprecisão dos exames laboratoriais para fazer prevalecer seus interesses e classificar toda e qualquer indisposição alimentar como algum tipo de intolerância!

Pode parecer inacreditável, mas os exames de sangue disponíveis na atualidade (mesmo os mais novos), são altamente imprecisos no diagnóstico de intolerância alimentar, por terem altas taxas de falso-positivo! Em outras palavras, muitos casos considerados como positivos para intolerância à glúten e principalmente à lactose, não possuem tal condição!

  As altas taxas de falso-positivo tornam os exames mais sensíveis, mas altamente imprecisos (e eles são feitos para serem assim mesmo), nunca devendo ser considerados isoladamente para o diagnóstico de intolerância alimentar, mas sempre associados aos chamados "testes práticos". A literatura é unânime em afirmar que o diagnóstico de intolerância, seja a glúten, seja a lactose, deve ser sempre confirmado através destes testes, onde a pessoa com suspeita da doença deve interromper o uso do alimento por períodos determinados (geralmente dias ou semanas), voltando a utiliza-lo depois! Nesse intervalo, deve-se observar o funcionamento do trato gastrointestinal e se houver uma clara associação entre o uso do alimento e os sintomas referidos pela paciente, o diagnóstico é considerado positivo! Ainda assim, os consensos mundiais sobre o assunto orientam muita cautela ao classificar uma pessoa como portadora de determinada intolerância alimentar, testando o alimento mais de uma vez, até que se tenha uma certeza diagnóstica!
  
  Em relação à doença celíaca, ainda é necessária confirmação com biópsia de intestino, procedimento mais complexo e doloroso, devendo ser reservado aos casos onde a suspeita é bem consistente. Entretanto, só a biópsia não fecha o diagnóstico, devendo o teste alimentar ser positivo, em mais de duas ou três vezes!

  Em relação à intolerância a lactose, a coisa ainda é muito pior, pois não existe nenhum exame laboratorial ou de biópsia que seja altamente confiável para seu diagnóstico, e o teste alimentar pode variar, estando positivo em alguns momentos e negativo em outros momentos da vida do paciente! 

  Como o leitor pôde observar pelo que foi dito acima, a exemplo de alimentos que já foram considerados como "milagrosos" e hoje são vilões declarados, e vice-e-versa (como o ômega 3, a vitamina E e o ovo), certamente a imensa maioria das pessoas que hoje têm diagnóstico de intolerância a glúten e/ou a lactose, em dois ou três anos, sequer  lembrarão que já tiveram esse diagnóstico na vida e estarão comendo todos esses alimentos sem culpa ou problema algum. 

  Por este motivo, quero lembrar da algumas verdades sobre alimentação realmente importantes e que nunca cairão de moda, até porque já se mostraram nocivas a saúde em centenas de publicações científicas altamente confiáveis, são elas:

-  Gorduras (particularmente as saturadas) estão associadas a aumento de risco de eventos cardiovasculares, como derrame cerebral e infarto, as principais causas de morte nos dias atuais;

- Excesso de açucares estão muito associados a obesidade e esta, por sua vez, associada ao diabetes, câncer e morte prematura;

- Alimentos artificiais e carnes vermelhas são produtos altamente cancerígenos, e devem ser utilizados com muita cautela;

- Uma alimentação equilibrada, incluindo a maior quantidade possível de grupos alimentares (priorizando frutas, verduras e legumes) e fracionada em cinco ou seis porções diárias, evitando exageros, são a melhor receita de uma vida saudável, com menor risco de doenças e aumento da expectativa de vida.

- Se você quiser aderir a moda do glúten free e lactose free, fique à vontade, mas lembre-se que muitas das "verdades" atuais sobre o assunto são tendenciosas, e tome muito cuidado para não pagar gato por lebre!

Renato Paula da Silva.

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